sábado, 23 de março de 2013

Tutorial Fender "NUMBER ONE" by Deiab

Finalmente apareceu por aqui uma unanimidade do mundo das guitarras que nunca antes fora citada neste Blog. É impossível, não obstante, falar de John Mayer, Blues, Tube Screamer e Stratocaster sem pensar em Stevie Ray Vaughan.

Nascido em Dallas, em 03 de outubro de 1954 ( "o ano" da Fender Stratocaster), Stevie representou o Texas-blues, caracterizado pelo Swing e pela fusão do Blues com o Rock. Sua pegada nervosa, apesar do calibre pesado das cordas (.013, .015, .019, .028, .038, .058. ), definiu o Blues moderno como hoje conhecemos.

Sua profícua carreira, infelizmente, foi interrompida precocemente em 27 de agosto de 1990, num acidente de helicóptero.

Seu legado sonoro e estético pode ser visto na lado Blues-rock do hoje quase enfadonho John Mayer. Vale destacar que este também tem uma strato toda relic inspirada na do velho SVR.

Assim, Deiab, 38 anos, morador de Curitiba-PR, confeccionou mais um brilhante projeto de réplica-relic.

Fico bastante agradecido por poder compartilhar aqui o seu excelente relato na íntegra:
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"Primeiramente, resolvi colocar esse post aqui, pois aqui partilhamos da mesma mania e quem não gosta, é simples, só não ler ou ver e pronto.

É extenso porque é dedicado aos que gostam de montar suas guitarras, fazer relics, e ou, réplicas, dando dicas e mostrando erros e acertos no processo com várias fotos, incluindo a original (algumas são de celular, então não estão tão boas).

A guitarra do Stevie Ray Vaughan, passou por muitas mudanças durante a carreira, ele trocava muito as peças dela desde a data em que comprou ela usada, e, digamos, maltratada. Então eu escolhi fazer a versão dela do período em que ele utilizou no DVD Live in Austin, mas antes da troca do braço que quebrou (foi entre os períodos da primeira parte do dvd e a segunda já com o braço novo).

Utilizei um corpo de uma stratocaster da Shelter comprada e fabricada no ano 2.000, o modelo era Shelter sky, com o headstock igual ao da fender.
O corpo é composto de três partes coladas, madeira clara e pesada, mas não sei qual é a madeira usada. Não conheço muito de madeiras.


Os moldes:

Os moldes eu utilizei fotos da internet da guitarra original (são pouquíssimas as boas) e aumentei as impressões até que fosse possível fazer um molde em tamanho real. Vou colocar umas fotos para dar ideia do processo
A parte da frente tem algumas fotos, mas da parte de trás da guitarra só encontrei uma foto boa.

Feito isso, utilizei fita crepe especial pra pintura (aquela azul) e desenhei o molde, alguns a mão livre outros tirando o molde em transparências usando como guia o molde em tamanho real. Colei as fitas em uma bancada e desenhei por cima delas, recortei com uma tesoura pequena e fui colando no corpo nos locais corretos.

Obs: Dá pra fazer tudo isso com o computador, mas eu não tenho pratica com o programa necessário e levaria mais tempo do que eu teria paciência.

O relic:

A pintura sunburst original da shelter é muito bem feita, não tem falhas, mas tem um porém, a guitarra do Stevie Ray Vaughan tinha camadas de pintura muito finas (ele alegava ser uma 59), mas o técnico de guitarra que o acompanhava alega que era uma 63 de acordo com o braço da guitarra, mas isso ninguém sabe ao certo. Digo isso pra ressaltar o tipo de verniz utilizado na original que era nitro, e na Shelter e a maioria das guitarras de hoje o verniz utilizado é o PU, então o desgaste para o relic por maior que seja o cuidado, não fica igual. A impressão que se tem é que o verniz das vintage se mistura com a tinta com o tempo, digo isso por uma série de fotos que vi, e depois olhem nas fotos da SRV para perceber o que estou tentando explicar.

O material que utilizei foi um canivete suíço e várias lâminas de estilete.
Não gosto daquelas canetas com uma lâmina na ponta, porque não dá o ângulo correto pra retirar a tinta sem estragar a madeira.

A parte mais simples é passar a lâmina do canivete, que deve ficar em pé, raspando na tinta (não estraga a madeira, podem ficar tranquilos). Essa shelter tinha muito verniz, demorou um bom tempo pra chegar na tinta que também não saiu com muita facilidade e por último o selador.

Obs: Alguns utilizam a pistola de ar quente pra tirar a tinta e o verniz, mas tem que ter cuidado ao utilizar pra não estragar tudo, e nas partes onde a tinta deve ficar não dá pra usar esse equipamento.

Feito isso, usei lixa com granulo mais fino entre 120 e 600, para deixar a madeira bem lisa e retirar os restos de tinta e selador que ficam. Nessa parte, o mais difícil é tirar perto da tinta, aí foi só com canivete, porque a lâmina arranca madeira.

Passado isso, nas partes onde começa a tinta eu utilizava tanto o canivete, quanto as lâminas de estilete, mas com muito cuidado. É muito fácil estragar o trabalho, arrancar pequenas lascas de madeira, ou riscar o verniz aonde não pode. 

Os relics no meio da pintura eu fiz a mão livre. É necessário um pouco de prática pra não exagerar e arrancar tinta a mais do que deve (se estiver fazendo uma réplica). Se for um relic comum, não precisa de toda essa atenção.

Por fim, os dois veios da madeira que são bem aparentes na original, pensei muito sobre, e teriam que ser feitos com lixa e ferramentas para escultura, mas demoraria demais e não era certeza que ficasse perfeito, sendo assim, fiz somente dois riscos que acompanham o desenho dos veios com os ferrinhos de escultura e ficou satisfatório o resultado.

Obs: Vejo vídeos e comentários sobre relic, onde esfregam moedas, parafusos, riscam com chaves de fenda, pregos, arrastam no chão, e sempre fica péssimo o resultado. Na minha opinião nada bate as seguintes ferramentas: canivete, lâmina de estilete, um kit de escultura, lima, mini retífica, principalmente usando a broca, lixas, betume e fita crepe para pintura, utilizando esta como máscara. O resto é aventura que tem grande probabilidade de dar errado.

Envelhecimento do corpo:

Nas partes onde tem tinta, utilizei a esponja de lavar louça, na lado verde, pra tirar o brilho do verniz, isso é bem rápido e não precisa esfregar muito.

A madeira, como é bem clara, eu coloquei novamente a fita crepe no local onde ela deve permanecer nessa cor, e passei betume marrom no restante do corpo. Diluí o betume em água, bem liquefeito e passei 6 demãos, deixando intervalos de 1 hora entre uma e outra com uma esponja bem macia.

Feito isso, retirei as fitas da parte clara e parti para os pedaços onde o marrom é mais escuro (manchas da parte de cima da guitarra) perto do braço, utilizando o betume diluído com uma colher de chá de água para uma colher de sopa de betume e um pincel de cerdas macias nº 8 (desenho a mão livre acompanhando a foto da original.

A outra parte perto do escudo e onde encostamos o braço (mão direita), passei 3 demãos a mais pra ficar um pouco mais escuro, e depois passei uma lixa grano 600 pra clarear um pouco no mesmo modo da original.

É legal esclarecer para o pessoal que muitos fazem essa réplica utilizando graxa de sapato preta, betume preto misturado com marrom e branco, mas muitos não levam em conta que as fotos além de serem antigas, tinham tratamentos bem rudimentares na época, luz, lentes, etc. Por isso, algumas fotos dão a impressão que a guitarra é um pouco acinzentada, mas ela não é. Pra acertar o tom da cor, tem que usar como base os vídeos e algumas fotos mais reais possíveis.

Por exemplo, a foto da réplica feita pela fender além de estar muito diferente da original dá a impressão que é cinza escuro, quase preto.

Peças:

Coloquei um jogo de malagolis custom que encomendei (são de saída baixa), som bem vintage. Agora ele tem uns materiais novos pra fazer caps customizados, e um escudo sanduíche com 12 furos.

Obs: Existe muita conversa sobre os caps da guitarra do Vaughan. As pessoas costumam comprar os texas special, que tem uma saída mais alta, e com graves mais pronunciados, pensando no som do Vaughan, mas esses caps foram feitos após a morte dele, e sinceramente, tenho minhas duvidas que ele mandou rebobinar os caps pra modificar seu som, visto que eram stock. 
Os caps originais, são de uma 59.
O restante do timbre vocês já sabem, pegada, cordas, caps, ferragem, amps, pedais, etc. 

Comprei um waterslide da fender do mesmo modelo da original no mercado livre.
Um jogo de cordas 0.10 daddario. Não uso outra, e tampouco mais pesada por um problema no pulso que me impede de fazer esforço maior.

No ebay comprei um jogo de tarraxas vintage fender, uma ponte original da fender, um bloco da ponte vintage, saddles da fender originais, e um kit fender com as peças de plástico vintage white, um neck plate customizado com o número da guitarra do Vaughan, potenciômetros, jacks, seletor de caps vintage , já tinha em casa quando fiz a outra guitarra, e, por fim, os adesivos customizados da guitarra original.

Montagem:

Na montagem tive diversos problemas, o escudo tive que fazer uns recortes milimétricos com uma mini-retífica pra não pegar na ponte, um ajuste no local onde encaixa o braço, o furo na parte onde fica o tensor, e o pequeno pedaço quebrado na parte de baixo do escudo, tudo com muito cuidado, pois o plástico estraga mais fácil que madeira.

A ponte foi outro dilema, pois a ponte original da fender tinha uma furação diferente do bloco vintage, mas tenho 3 pontes de guitarras velhas sobrando em casa e utilizei uma base de uma ponte Palmer que eu tinha aqui e encaixava nos furos do bloco, mas mesmo assim, a rosca da alavanca não batia. Sendo assim, a única solução foi desgastar a base na parte do encaixe da alavanca, e ficou tudo certo.

Passado isso, percebi que o encaixe do bloco com o corpo não tinha espaço para acionar a alavanca, ela ficava travada, então tive que retirar a ponte, comer um pouco da madeira e fazer o acabamento para dar espaço para o bloco.

No espaço da alavanca, por ser pra canhoto (Stevie colocou por ser fã do Hendrix), ficava um buraco, onde o luthier do Vaughan colocou um pedaço de madeira para tampar, fiz o mesmo com a broca da mini retifica, depois de errar 6 moldes, e colei com cola de madeira.

Na parte de trás na guitarra original, tinha um pedaço de madeira que foi colado no lugar onde fica a ponte, mas na minha não havia necessidade de fazê-lo (não sei o motivo de terem feito isso na dele), seria perda de tempo, então eu fiz um pequeno corte só pra dar o efeito visual.

Percebi que a alavanca que o Vaughan utilizava era um pouco menor que o padrão, então cortei um pedaço de uma que eu tenho com uma lima na mesma medida.

Jack eu usei o da Shelter por ser dourado desbotado, como o que ele utilizava, desgastei um pouco todos os parafusos e lixei bem pouco a ponte.

Não envelheci a ponte por um único motivo, estava lendo a entrevista do Técnico de guitarra dele e ele contou que o Vaughan trocou várias vezes de ponte naquela guitarra, até colocar a dourada, pois ele as quebrava sempre. Então, creio que não dava tempo delas ficarem velhas, e olhei várias fotos e elas nunca tinham aspecto envelhecido, sujo, ou qualquer coisa do gênero.

Por fim, retirei o molde da assinatura dele, e fiz com tinta nanquim no corpo da guitarra, preenchendo as letras que fiz com um instrumento de escultura (uns ferrinhos iguais aos de dentista).

Fiz toda a parte elétrica, me queimando a vontade com o ferro de solda.

Braço:

Mandei fazer no luthier, com trastes jumbo, nut de osso, escala em rosewood (o primeiro braço que ele utilizou é em rosewood e não pau-ferro como o utilizado na signature dele), marcação vintage white e o braço em maple shape c, não tão grosso quanto a original.

Mandei escurecer um pouco o braço, e não quis passar verniz brilhante, pra poder trabalhar melhor no envelhecimento, porém, o envelhecimento e desgaste do braço estou em dúvida se vou fazer, pois gostei do resultado e acho que já provei meu ponto, que era fazer o mais parecido que eu pudesse.

Obs: Parem com essa bobagem de mergulhar peças de guitarra no café, não serve pra nada. 

As fotos da guitarra original são todas da net, alguns songbooks que eu tenho, capas de revistas minhas e algumas do ebay.

Fotos da original:

Reparem no que falei sobre a pintura e a questão do verniz.
A cor da guitarra original, como falei não é cinza, é marrom claro.
Essa foto foi tirada no museu onde ela se encontra em Austin no Texas.

Uma foto que revela bem a cor da guitarra:


A réplica feita pela fender:


Essa réplica feita pela Fender, na minha opinião teve muito pouca atenção. Fizeram 100 delas, mas os detalhes da original não batem, e apesar de ser uma custom shop fica nítido que foi utilizado um molde padrão pra todas se repararem com atenção nos relics da guitarra.
Enfim, todas diferentes umas da outras e o envelhecimento ficou muito artificial como vocês podem comparar na fotos da 1ª lá em cima – original; e das réplicas da Fender que coloquei aqui.
Pagaram a bagatela de R$25.000,00 dólares por elas.
Eu compreendo que a empresa não perderia o tempo que eu gastei fazendo isso, pois o custo é alto, mas por R$25.000,00 dólares daria pra melhorar o padrão.

Cabe ressaltar que essa réplica da fender foi feita com base no modo como ele deixou a guitarra, na época em que faleceu: escudo de oito furos, ponte dourada, adesivo das letras novo, tarrachas schaller douradas e em madre pérola.

O que não ficou igual na minha:

A base para segurar as molas na original é mais larga, a minha é milímetros menor.

O corpo da dele tem um relic muito pesado no chifre inferior, e eu não quis destruir muito o corpo da minha guitarra.

O local onde ficam as molas tem um desgaste na madeira bem pesado, e eu também não quis fazer, mas se utilizar uma lima e um pouquinho de lixa, fica igual.

O encaixe na base da ponte onde tive que aumentar o buraco pra poder rosquear a alavanca.

O braço eu já comentei anteriormente, e creio que não vou fazer mais nada, gostei assim.

A pintura como ressaltei, só se fosse feita do zero, utilizando a mesma quantidade de tinta e o mesmo tipo de verniz. Quanto ao que dizem que não dá pra envelhecer igual a uma original. Dá sim, só que dá muito trabalho e o custo é alto, portanto, se quiser perfeito, na minha opinião tem que fazer sozinho. Digo isso pra réplicas que tenham relic.

Enfim, como vocês podem notar muita coisa não ficou igual, mas buscando ficar o mais próximo da original, fica bom o resultado.

Quanto ao som ainda não tive tempo de testá-la pra dizer algo, mas ficou bem silenciosa por ter singles, e eu não ter blindado absolutamente nada.
A ponte ficou estável, sendo a primeira strato que consigo usar a alavanca e não desafina o tempo inteiro.

Fotos do material utilizado:

Bem longe de ser uma oficina de luthieria. Quem sabe um dia... mas só por hobby!



O projeto teve início no começo de dezembro de 2012 e ficou pronto em 12 de março de 2013. Boa parte desse prazo foi de espera pelas peças compradas no ebay.


Espero que ajude quem gostar desse tipo de hobbie.
Eu acho que valeu o esforço e dedicação."
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Confiram os comentários dos usuários do FCC sobre o trabalho de Deiab:
http://forum.cifraclub.com.br/forum/3/294120/p3#8609507

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